Por que as pessoas se automutilam e o que fazer a respeito?

Uma mulher sentada no sofá, com a mão na cabeça e segurando um telefone celular

Categoria: Trauma

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Importante: este artigo é meramente informativo e insuficiente para um diagnóstico definitivo. Sendo assim, é recomendado agendar uma consulta sobre seu caso em particular.

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Automutilação é quando alguém, deliberadamente, inflige alguma forma de dano físico a si mesma, sendo a mais comum os arranhões e cortes na pele.

Outros exemplos incluem: queimar, bater ou socar objetos, ou a si mesmo. E, as áreas mais comuns do corpo que são afetadas são os braços, pernas e área do estômago.

Ações que potencialmente causam danos, como uso de substâncias e risco excessivo, são consideradas apenas “automutilação” quando há a intenção de se prejudicar.

Embora a automutilação física e os pensamentos de suicídio possam ocorrer juntos, a grande maioria das pessoas que se envolvem com ela não tem intenção de se matar.

Ela é, muitas vezes, uma indicação de sobrecarga emocional e dificuldades com a regulação emocional.

A automutilação é comum?

Mesmo que possamos pensar em um exemplo flagrante de alguém que possui cicatrizes inquietantes em seus braços, a maioria das pessoas mantém a automutilação escondida.

A prevalência exata de automutilação é difícil de estabelecer porque ela é uma aflição oculta. Como a maioria daqueles que se machucam sentem vergonha ou medo de serem julgados por outras pessoas, eles mantém seu comportamento em segredo.

Geralmente, é só quando uma pessoa está sendo atendida por outras preocupações, como ansiedade, depressão, uso de substâncias ou trauma, que a extensão de sua autoagressão é descoberta.

Apesar da natureza muitas vezes oculta da automutilação, estima-se que aproximadamente 17,2% dos adolescentes, 13,4% dos adultos jovens e 5,5% dos adultos o fazem.

Por que as pessoas se envolvem em automutilação?

Algumas pessoas se machucam como uma:

  • Tentativa de lidar com intensos sentimentos negativos (muitas vezes por causa de trauma);
  • Sensação de perda de controle;
  • Opressão em suas vidas.

Embora os membros da família tenham dificuldade de entender por que alguém de quem gostam está se automutilando, é importante saber que comportamentos sempre servem a uma função ou propósito.

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As pessoas precisam ser compreendidas, e não culpadas, julgadas ou criticadas.

Uma pessoa que se autoflagela está experimentando emoções intensas e angustiantes, como:

  • Tristeza;
  • Medo;
  • Ansiedade;
  • Raiva;
  • Vergonha.

A experiência dessas emoções subjacentes pode ou não ser evidente para os outros. Indivíduos que se automutilam tem dificuldade em vivenciar e lidar com dolorosas emoções.

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Essa dificuldade acontece porque a pessoa:

  • Nunca foi ensinada a perceber, expressar e lidar com os sentimentos;
  • Foi envergonhada ou culpada por suas emoções;
  • Se sente sozinha e/ou incapaz de lidar de outras maneiras.

Em momentos da vida, onde alguém se sente sobrecarregado por intensas emoções, a automutilação aparece como:

  • Uma parte de si mesma;
  • Uma forma de se sentir novamente no controle do corpo e da mente;
  • Uma maneira de aliviar o estresse ou a pressão.

A automutilação também é uma maneira de expressar emoções. Ela é uma tentativa de desviar a atenção de memórias ou sentimentos dolorosos, como ansiedade, tristeza, raiva ou outras emoções.

Em minha experiência clínica, as pessoas se utilizam da automutilação por causa de um medo subjacente a própria raiva.

A automutilação infligida permite que uma pessoa dissipe a energia da raiva em si mesma, ao invés de ferir outra pessoa.

A automutilação não é um ato sem sentido. O seu motivo exato vai variar entre as pessoas, mas sempre há algo que faz sentido.

Mas, independentemente do motivo, para ajudar alguém que se machuca, é essencial entender e curar, não julgar, entrar em pânico ou forçar alternativas.

Por que se preocupar com a automutilação?

Porque, muitas vezes, existe o risco da pessoa causar mais ferimentos em si mesma do que realmente pretendia.

A automutilação com objetos pontiagudos, por exemplo, pode ser difícil de ser executada com precisão.

Alguns indivíduos relatam experiências em que acabaram com uma lesão mais grave do que o pretendido, e isso pode levar à hospitalização, cicatrizes graves e até a morte.

Isso é especialmente preocupante porque pessoas que se automutilam podem não procurar atendimento médico, geralmente motivados pelo medo e o estigma associados à automutilação.

Outro motivo para se preocupar com a automutilação é que ela pode se tornar mais difícil de parar com o tempo, à medida que o comportamento se torna habitual.

Alguns indivíduos que se automutilam descreveram a natureza aditiva de seu comportamento, pois, com o tempo, passam a confiar cada vez mais na automutilação como um mecanismo de enfrentamento, como uma maneira rápida de mudar a dor emocional intensa.

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Portanto, é fundamental procurar ajuda o mais cedo possível, antes que hábitos e/ou padrões mais profundos se desenvolvam e exijam mais empenho para mudar.

As razões para o aumento da automutilação incluem:

  • A influência das pessoas ao verem mais casos de automutilação na mídia;
  • Influências sociais (jovens copiando o comportamento dos colegas);
  • Aumento do estresse e da crise entre as pessoas;
  • Mais pessoas procurando serviços de saúde mental e falando sobre automutilação.

Em suma, devemos nos preocupar com a automutilação porque:

  • As pessoas causam mais danos a si mesmas do que o pretendido;
  • O comportamento prejudicial é mais difícil de parar com a repetição;
  • Cada vez mais os jovens estão recorrendo à automutilação, enquanto há várias opções de ajuda dispoíveis.

O que fazer se você se automutilar?

Se você se automutila, então é fundamental aumentar a qualidade do seu sistema de suporte.

Considere procurar apoio de colegas ou fale com um Psicólogo. Ele vai ajudá-lo a entender as causas profundas (e a função real) de seus comportamentos autodestrutivos.

Aumentar a própria compreensão sobre o problema tornará mais fácil estabelecer um plano de tratamento para seu caso automutilação.

Embora o plano de tratamento vá variar entre os indivíduos, em geral, é necessário primeiro entender e avaliar a intenção da automutilação.

As próximas etapas envolvem o aprimoramento de sua capacidade de lidar com emoções e/ou autorregular-se diante do estresse ou angústia.

Melhorar o enfrentamento dessas emoções será alcançado por meio de estratégias como treinamento de atenção plena e/ou mudança de diálogo interno negativo.

Abordagens adicionais envolvem a identificação de alternativas concretas à autoagressão, como reduzir o estresse e melhorar o autocuidado.

A terapia focada no trauma ajuda a curar os impactos de experiências que influenciam comportamentos ou impulsos autodestrutivos.

Veja o que você pode fazer começando agora:

  • Reconheça que a vida é desafiadora e, às vezes, não é fácil lidar com as coisas. Mas, não seja tão duro consigo mesmo;
  • Mantenha suas expectativas realistas. Procure apenas uma leve redução na intensidade da emoção;
  • Pense em seus impulsos de automutilação como sendo representados em um termômetro, enquanto quanto mais alta a temperatura, mais intenso é o desejo;
  • Faça uma avaliação ao longo de cada dia, e se os impulsos estiverem mais fortes, esteja preparado para ações alternativas;
  • Identifique maneiras de se acalmar com seus cinco sentidos. Exemplos de calmantes incluem: ouvir música relaxante, cheirar um óleo essencial desejável, mascar chiclete, respirar mais devagar, apertar algum objeto, etc;
  • Procure alguém para se sentir mais apoiado, mesmo que não tenha vontade. As pessoas que fazem contato com mais frequência com outras tendem a fazer mudanças mais rapidamente;
  • Não espere um caminho direto para a recuperação, mas a mudança é sempre possível.
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O que fazer se alguém de quem você gosta se automutilar?

Mesmo que seja assustador ver alguém de quem você gosta se automutilando, não entre em pânico. Fortes reações à automutilação farão com que a pessoa se afaste de você.

Isso causará mais sofrimento e dano por causa da vergonha, o que é contraproducente.

Busque um equilíbrio entre abordar a preocupação que você tem e lembrar que as pessoas que se automutilam não querem morrer ou mesmo causar ferimentos físicos graves a si mesmas.

Não faça suposições.

Mesmo que você não entenda por que a pessoa está se machucando, lembre-se de que sempre há razões para um comportamento.

Se a pessoa não quiser falar sobre a automutilação, não a force ou leve isso para o lado pessoal. Gentilmente, deixe-a saber que você se importa e que deseja ajudá-la. Pergunte o que ela precisa de você.

Deixe a pessoa saber que a automutilação não é algo para se envergonhar e é algo mais comum do que ela pensa.

Ao mesmo tempo, deixe-a saber que seu comportamento se tornará mais sério do que inicialmente pretendido, e que a ajuda está disponível. Incentive alternativas como segurar gelo nas mãos ou se acalmar.

Se a pessoa estiver aberta a mais informações, encaminhe-a para um Psicólogo ou Psiquiatra.

Se a pessoa não for receptiva às suas preocupações, considere se mais alguém poderia falar com ela.

Não desista caso precise convencer a pessoa a considerar suportes ou informações adicionais. Considere obter apoio para si mesmo, enquanto isso.

Pode ser genuinamente desanimador e incapacitante ver alguém de quem gostamos se machucar.

Lembre-se de que é mais provável que a aceitação, a compreensão e o não julgamento ajudem seu ente querido a se recuperar do que reações intensas ou tentativas forçadas de ajudá-lo.

Sobre o autor: Emilson Lúcio da Silva

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Autor: Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Emilson Lúcio da Silva é Psicólogo desde 2012. Ele possui o título de especialista pelo Conselho Federal de Psicologia e é reconhecido como uma autoridade na área de saúde mental.

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