Nem todo abusador emocional tem relação com o narcisismo

Um homem e uma mulher frente a frente se olhando

Categoria: Narcisismo

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Importante: este artigo é meramente informativo e insuficiente para um diagnóstico definitivo. Sendo assim, é recomendado agendar uma consulta sobre seu caso em particular.

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Parece que o comportamento do abusador emocional está finalmente recebendo a atenção que merece. A má notícia é que a maioria das pessoas ainda não está entendendo direito.

Hoje em dia, muitas pessoas que escrevem sobre abuso emocional consideram que ele é cometido por um narcisista. Mas isso não é verdade.

Enquanto um abusador emocional pode ser diagnosticado com transtorno de personalidade narcisista ou ter tendência narcisista, outro pode ter um transtorno inteiramente diferente.

Ainda há aquele que não têm nenhum transtorno de personalidade, mas está simplesmente repetindo o que lhe foi feito durante a infância, ou imitando o comportamento de seus pais sem nem perceber que está sendo abusivo.

Há duas categorias de abusador emocional:

  • Abusador emocional não intencional: aquele que inconscientemente repete o comportamento dos pais, que sofre de transtorno borderline e o narcisista que ignora o efeito que têm sobre os outros;
  • Abusador emocional intencional: são os narcisistas malignos que, maliciosamente se propõem a minar e até destruir o parceiro.

Todos os narcisistas são abusivos?

É importante entender que nem todo narcisista é abusador. Existem pelo menos três subtipos distinguíveis de narcisismo:

  1. Grandioso e aberto;
  2. Vulnerável e encoberto e;
  3. Maligno.

O narcisista grandioso e aberto

Caracterizado por ousadia, arrogância e traços de personalidade grandiosos. Pessoas com esse tipo são mais propensas a não ter empatia, se comportar de forma agressiva, explorar os outros e se envolver em comportamentos exibicionistas.

Também exige elogios e atenção excessivos.

O narcisista vulnerável e encoberto

Caracterizado por hipersensibilidade e defensividade. Tende a ter muita ansiedade e precisa de muita atenção e apoio. Anseia e busca aprovação e admiração, mas age de maneira mais sutil, muitas vezes passivo-agressiva.

O narcisista encoberto pode até ser exteriormente discreto ou retraído em sua abordagem, mas os objetivos finais são os mesmos.

O narcisista maligno

Considerado o tipo mais grave, o mais prejudicial e tem um lado mais sombrio. Enquanto a maioria dos narcisistas não se propõe conscientemente a abusar dos outros, o maligno faz exatamente isso. Além dos traços gerais de narcisismo, também tem traços antissociais, e até sádico.

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Os traços antissociais em narcisistas malignos incluem:

  • Um padrão de violação dos direitos dos outros;
  • Desobedecer regras e leis;
  • Enganar os outros;
  • Agressividade;
  • Comportamento imprudente e prejudicial; e
  • Usar ou explorar outros para ganho ou prazer pessoal.

Embora haja esperança para muitos narcisistas, se o seu parceiro corresponder à descrição de um narcisista maligno, há pouca ou nenhuma esperança de que ele mude.

O abusador emocional que repete o que foi feito com ele

Em algumas situações, aquele que abusa emocionalmente não percebe que está sendo excessivo.

Isso não justifica seu comportamento, mas certamente se opõe à ideia atual de que todo abusador emocional é um horrível monstro narcisista, empenhado em destruir e seu parceiro.

Uma criança que cresceu em um ambiente de violência doméstica e/ou abuso emocional aprende a ver a violência emocional e física como formas válidas de descarregar a raiva e lidar com seus próprios problemas de autopercepção e medos internos.

O comportamento abusivo é aprendido como normal, assim como proteger-se e evitar o que é doloroso ao ver o parceiro como causa de sua infelicidade.

Ser abusado ou testemunhar abuso prejudica a capacidade da criança de confiar nos outros e enfraquece sua capacidade de controlar os sentimentos.

Isso produz pessoas dependentes, hostis e emocionalmente inseguras com uma capacidade profundamente enfraquecida de construir e manter relacionamentos saudáveis. Além disso, baixa autoestima, ciúme descontrolado e sentimentos de falsa superioridade alimentam os comportamentos abusivos.

Quando alguém com esse histórico percebe que está abusando de seu parceiro, fica chocados.

Ele não percebeu como seu comportamento era tão prejudicial porque presumiu que essa era apenas a maneira como as pessoas se tratavam. Ele, muitas vezes, sente remorso e fica terrivelmente envergonhado.

Ele prometem mudar e, embora não seja uma tarefa fácil, faz exatamente isso, especialmente se frequentarem sessões de terapia.

A conexão entre o abusador emocional e o uso de substâncias

Há também uma forte correlação entre abuso emocional, uso de álcool e outras substâncias.

Por exemplo, a violência contra mulheres é de duas a quatro vezes mais provável quando estão com homens que abusam do álcool. Vítimas e agressores têm 11 vezes mais chances de se envolver em incidentes de violência doméstica em dias de abuso de substâncias pesadas.

É possível que um parceiro normalmente compreensivo e amoroso se torne abusivo ao ficar chapado ou intoxicado.

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Tecnicamente, esse tipo de abuso emocional pode ser classificado como abuso “não intencional”, pois o agressor não está necessariamente tentando controlar ou envergonhar seu parceiro, pelo menos não conscientemente.

O que ele ou ela pode estar fazendo, embora em um nível inconsciente, é dissipar sua raiva. É aqui que a conexão entre o trauma anterior da infância e o abuso emocional se manifestam.

Existe uma forte associação entre abuso, negligência na infância e abuso de substâncias na idade adulta. Em particular, os homens com histórico de abuso sexual infantil correm maior risco de problemas de abuso de substâncias.

As taxas mais altas de problemas com entorpecentes entre adultos sobreviventes de abuso infantil e negligência são, em parte, devido ao uso de substâncias para automedicação de sintomas de trauma, como ansiedade, depressão e memórias intrusivas.

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Se o seu parceiro tem um histórico de abuso e/ou negligência na infância, ou testemunhou abuso emocional ao crescer, ou se você suspeita que ele ou ela tenha, pode haver esperança para o seu relacionamento.

Isso se, e eu enfatizo se, ele ou ela estiver disposto procurar terapia para tratar traumas de infância, além de procurar ajuda para superar o abuso de substâncias.

Quando um narcisista se torna abusivo?

É importante, ao lidar com um indivíduo narcisista ou com fortes traços narcisistas, continuar lembrando que ele não é um ser humano muito consciente, especialmente quando se trata de seu próprio comportamento.

Embora muito de seu comportamento seja experimentado como emocionalmente abusivo, ele não está necessariamente tentando fazer você se sentir mal consigo mesmo (o narcisista maligno é uma exceção).

O objetivo principal do narcisista é se sentir bem, mesmo às custas dos outros. A desatenção, impetuosidade e os comentários insensíveis parecem como se estivesse deliberadamente tentando machucá-lo, quando na realidade não se importa com o que você sente.

Por esta razão, é importante não levar para o lado pessoal o que um indivíduo narcisista diz ou faz. Isso, claro, é uma tarefa muito difícil. Lembre-se que no mundo de um indivíduo narcisista, ele é o centro do universo.

Isso não significa que não tenha sentimentos, ou que é incapaz de se importar com os outros, mas significa que suas necessidades sempre virão em primeiro lugar.

A única vez que o narcisista deliberadamente tenta ferir os outros (novamente, com exceção do narcisista maligno) é quando ele próprio se sentem criticado ou ameaçado. O indivíduo narcisista corta você em segundos, usando as palavras certas que vão feri-lo.

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O abuso emocional na relação com um borderline

Outro tipo de agressor que não percebe que está prejudicando seu parceiro é o que sofre de transtorno de personalidade borderline.

Não só esse tipo de indivíduo não percebe que está sendo emocionalmente abusivo, mas o seu parceiro também não percebe que é uma vítima de abuso emocional.

A vítima sabe que é infeliz em seu relacionamento, mas se culpa ou fica confusa quanto ao que está causando as contínuas discussões. Ela também é frequentemente culpada pelos problemas, ou levada a sentir que, se fosse mais amorosa, mais compreensiva ou mais excitante, as coisas melhorariam.

A ironia é que um parceiro de um borderline é excessivamente dependente, deixando-o extremamente paciente e disposto a tolerar comportamentos intoleráveis.

O borderline, muitas vezes, experimentou alguma forma de abuso ou abandono quando era bebê ou criança. Esse abandono pode ter sido:

  • Físico. Como hospitalização de um dos pais, a morte de um dos pais, ser colocado para adoção, ser deixado em um berço por horas a fio ou;
  • Emocional. Como ter uma mãe que não conseguiu se relacionar com seu filho, ser uma criança indesejada cuja mãe a negligenciou, ter um pai distante e sem amor, etc.

O abandono físico ou emocional faz com que o indivíduo borderline tenha muito medo de ser rejeitado ou abandonado em um relacionamento íntimo, e ter que sentir novamente a ferida original, ou de se distanciar e desapegar como forma de se defender da dor potencial de intimidade.

Na maioria dos casos, o indivíduo borderline realmente oscila de um extremo ao outro. Isso é comumente referido como: experimentar os medos gêmeos de abandono e engolfamento.

Por exemplo, em um determinado momento, um indivíduo borderline é emocionalmente sufocante, agarrando-se desesperadamente ao parceiro, exigindo muita atenção ou implorando para que ele nunca a deixe.

Em outro momento, talvez apenas algumas horas ou dias depois, a mesma pessoa pode ser dominada pelo medo de ser engolida. Ela pode se tornar distante e retraída sem motivo aparente ou pode afastar seu parceiro acusando-o de não amá-lo, de ser infiel ou de não achá-lo mais atraente. Pode até acusá-lo de ser muito carente.

Sobre o autor: Emilson Lúcio da Silva

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Autor: Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Emilson Lúcio da Silva é Psicólogo desde 2012. Ele possui o título de especialista pelo Conselho Federal de Psicologia e é reconhecido como uma autoridade na área de saúde mental.

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