As pessoas com personalidade borderline são reféns da vergonha

Os pacientes com diagnóstico de Transtorno de personalidade borderline são especialmente vulneráveis ​​à vergonha.

Categoria: Borderline

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Importante: este artigo é meramente informativo e insuficiente para um diagnóstico definitivo. Sendo assim, é recomendado agendar uma consulta sobre seu caso em particular.

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Quem é você? Em nossa atual cultura de mídia, as identidades de grupo (racial, sexual, de gênero, política) tendem a receber muita atenção. Porém, para nós Psicólogos, a versão de como você se percebe está mudando a todo momento.

Nosso senso de identidade pessoal muda em resposta a vários fatores, especialmente diante de nossos estados emocionais. Imagine, por exemplo, que outro motorista lhe dá um fechada no trânsito. Aquela versão momentânea de “você” de repente ensaia fantasias de retaliação em relação a esse motorista anônimo. Felizmente a raiva é uma emoção curta e com meia-vida, e esse “eu guerreiro vingador” se dissipará nos próximos minutos.

Com a vergonha é diferente. Nenhuma outra emoção impacta tão literal e diretamente o senso global de quem somos. Ao sentir vergonha, nos sentimos pequenos, diminuídos, inadequados e maus. Na vergonha aguda, o acesso à consideração positiva, ou mesmo a um senso coerente de existir ou merecer existir, nos abandona momentaneamente.

Embora todos nós lutemos contra a vergonha de vez em quando, pessoas com transtorno de personalidade borderline experimentam níveis significativamente maiores de vergonha (mas, curiosamente, menos culpa ) em comparação com outras pessoas.

Se você foi diagnosticado com transtorno de personalidade borderline, ou conhece alguém com esses traços, é fundamental entender o importante papel da vulnerabilidade à vergonha e as manifestações muitas vezes confusas desse transtorno.

O borderline e a vergonha

O transtorno de personalidade borderline começa na adolescência ou no início da idade adulta. Caracteriza-se por

  • Problemas de relacionamento interpessoal (alternando entre idealização e desvalorização);
  • Distúrbios de humor (depressão e principalmente raiva inadequada e intensa) e;
  • Autoimagem instável.
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O transtorno de personalidade borderline também está associado a:

  • Condições psiquiátricas;
  • Abuso de substâncias;
  • Dstúrbios alimentares e;
  • Outros problemas médicos.

Pessoas com personalidade borderline estão sujeitas a gatilhos frequentes para experiências perturbadoras de vergonha. Esses episódios são duradouros, distorcendo gravemente as percepções e o comportamento.

As experiências de vergonha em períodos cruciais durante a infância e a adolescência ajudam a consolidar o acúmulo de uma rede de crenças negativas sobre si mesmos, sobre as outras pessoas de quem dependem e sobre a virtual certeza de maus-tratos.

Ao longo da vida, o borderline continua inconscientemente buscando e encontrando (involuntariamente provocando) a confirmação de um sentimento doloroso e internalizado de inadequação fundamental, maldade e vitimização. Qualquer encontro aleatório, decepção, memória, pensamento ou fantasia é capaz de reativar este processo.

De volta à analogia anterior, é como se o borderline se sentisse “cortado” por situações ou outras pessoas várias vezes ao dia. De especial preocupação para quem os tratam, os pacientes borderline são propensos a ameaças, gestos e tentativas suicidas, bem como a comportamentos de automutilação.

Por um lado, eles frequentemente se sentem desesperados e tentarão medidas para obter a atenção e o cuidado dos quais se sentem cronicamente privados. Mas, ao mesmo tempo, estão hiperalertas para a desaprovação ou abandono imaginado desses mesmos cuidadores.

A instabilidade permeia a vida do borderline. Ao tratar um paciente borderline, parece que estamos lidando com várias pessoas diferentes. De um momento para outro, as mudanças no senso de identidade e no comportamento são repentinas e dramáticas.

No início de uma sessão, você está sentado com alguém que parece calmo e perspicaz, apenas para descobrir que o mesmo paciente se torna inexplicavelmente argumentativo, zangado e reclamante no final da sessão. Eles são propensos a irromper com raiva das sessões de terapia e do tratamento como um todo. Dessa forma, a terapia é uma demonstração da qualidade de seus outros relacionamentos.

Caminhando sobre ovos

Ao revisar posteriormente com um paciente o que levou a uma dessas erupções repentinas, o Psicólogo precisa ser diplomático e não acusatório. Frequentemente, é a queda em uma rede oculta de estados mentais vergonhosos e auto-ódio que resulta no desalinhamento.

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Por exemplo, há muito tempo é de conhecimento que um Psicólogo deve evitar, mesmo discretamente, olhar para o relógio durante uma sessão com um paciente borderline. Excepcionalmente alerta a qualquer sinal de que a atenção está distraída ou diminuindo, ele acusará veementemente esse Psicólogo de “não se importar de verdade” ou de achar o paciente “ chato ”.

Em um nível mais profundo, essa pronta vulnerabilidade a uma sensação de abandono está relacionada ao desencadeamento de estados mentais nos quais o paciente é lembrado de se sentir vazio, sozinho, invalidado e indigno de atenção. Em meio a tal implosão de autoestima e fragmentação de identidade, outras pessoas, até mesmo um Psicólogo de longa confiança, tornam-se pouco mais que caricaturas de monstros cruelmente indiferentes.

Escondendo, culpando e atacando

Existem três respostas principais à vergonha instalada na natureza humana:

  • Esconder-se;
  • Culpar-se e;
  • Atacar com raiva.

Apesar da procura desproporcional de ajuda (a personalidade borderline é o transtorno de personalidade mais comum visto em ambientes de tratamento ambulatorial e hospitalar), ele raramente revelam diretamente os conflitos internos no cerne de seu sofrimento.

Em vez disso, o comportamento autolesivo, como corte ou preocupação suicida, é encenado, muitas vezes como um meio de comunicar necessidades de cuidado e conflito sobre recebê-lo. A dor psíquica é assim convertida nos domínios físico e interpessoal. A verdadeira natureza da dor emocional é escondida dos outros e apenas vagamente compreendida pelo paciente.

Se você é um Psicólogo que trata borderlines, ou compartilha sua vida com um algum, o conflito lhe é familiar e a culpa estará no ar. Você não apenas será considerado culpado pelas alegadas falhas de cuidado, como também se envolverá em ciclos internalizados (muitas vezes não comunicados diretamente) de autoculpa.

É útil para o Psicólogo estar ciente de que, quando um paciente borderline está expressando culpa ou ódio em relação à você, ele pode, na verdade, estar se livrando de uma onda imediata de autodesprezo latente.

O termo “fúria limítrofe” foi cunhado para se referir a um sentimento particularmente amargo e avassalador de raiva cega manifestada por pacientes borderline. Ao se sentir sozinho ou abandonado, deixado com uma sensação fundamental de “algo faltando” dentro de si, o borderline reage com níveis de raiva extrema que irão surpreendê-lo e até chocá-lo.

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Nesses estados, ele perde a capacidade de discernir com precisão o comportamento ou os motivos dos outros, assim projetando indiferença ou crueldade intencional. Estratégias de desescalada, em vez de explicações sofisticadas ou intervenções mais profundas e perspicazes, são necessárias nesses casos.

Desenvolvendo consciência

Um componente central para o tratamento do borderline é o desenvolvimento e a prática da atenção plena. Na atenção plena, a consciência é focada na identificação de pensamentos e sentimentos ativos, no momento presente, enquanto suspende o autojulgamento.

No processo de observar cuidadosamente, descrever e participar de suas experiências imediatas, os pacientes aprendem a identificar e controlar hábitos mentais destrutivos que de outra forma não seriam examinados.

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O treinamento é desafiador, mas vale a pena. Ao passar por protocolos de atenção plena, as pessoas com personalidade borderline ficam quase imediatamente impressionadas com o nível de autojulgamento vergonhoso que trazem para grande parte de suas vidas.

Inicialmente parece avassalador, mas quando desacelerado e examinado, muitos pensamentos e suas origens emocionais tornam-se mais claros tanto para o paciente quanto para o Psicólogo.

Ao contrário da culpa, que é um tópico frequente na terapia, a vergonha tende a permanecer privada, uma emoção dolorosa raramente reconhecida até para nós mesmos.

Uma vez revelados na presença segura de um profissional confiável, pensamentos e memórias vergonhosas perdem um pouco de seu controle sobre os estados mentais. Quando inicialmente chegam ao tratamento, os pacientes borderline mantêm muitas crenças sombrias e restritivas sobre si mesmos, e com uma certeza semelhante ao senso de destino.

Com tratamento adequado, essas crenças se tornam tópicos a serem explorados e reconsiderados.

Sobre o autor: Emilson Lúcio da Silva

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Autor: Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Emilson Lúcio da Silva é Psicólogo desde 2012. Ele possui o título de especialista pelo Conselho Federal de Psicologia e é reconhecido como uma autoridade na área de saúde mental.

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