Por que Psicólogos falham em ajudar pessoas?

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Importante: este artigo é meramente informativo e insuficiente para um diagnóstico definitivo. Sendo assim, é recomendado agendar uma consulta sobre seu caso em particular.

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Há casos de pessoas que entram em terapia e não são ajudadas em nada. Algumas acabam saindo pior do que chegaram e, ironicamente, alguns Psicólogos são exemplos dos tipos de problemas que estão tentando tratar.

Por que isso acontece, e como se tornar um consumidor mais informado ao considerar a terapia?

Apesar do declínio do tratamento psicanalítico mais ortodoxo, as pessoas continuam buscando ajuda profissional para lidar e resolver os enormes desafios emocionais. Elas querem aumentar a capacidade de ter relacionamentos saudáveis ​​e vidas bem-sucedidas.

No entanto, muitas vezes os Psicólogos não ajudam as pessoas. Algumas ficam por anos em terapia, pulando de um profissional a outro, e parecem nunca fazer nenhum progresso. Outras até conseguem resolver alguns conflitos, mas depois são atingidas por outros problemas que não foram resolvidos.

Vejo três razões para esta situação:

  1. O tipo de pessoa que os Psicólogos tendem a ser hoje. Seus valores pessoais, atitudes sociais e como se relacionam com as normas e comportamentos convencionais contrastam de várias maneiras com os dos “pioneiros” da época de Freud. Esse contraste impede uma ajuda eficaz;
  2. Os tipos de problemas que as pessoas experimentam. Eles evoluíram ao longo das décadas, especialmente depois do 11 de setembro e a quase depressão no outono de 2008. Muitos Psicólogos não estão sincronizados com o impacto dessa mudança. Eles não conseguem entender como as condições do século 21 afetam as vidas emocionais e os conflitos. Muitos não têm noção de como a vida no mundo de hoje se entrelaça com as disfunções ou conflitos familiares que os pacientes trazem consigo;
  3. A visão dos Psicólogos sobre os objetivos do tratamento. Muitos permanecem presos a um modelo mais antigo, o de ajudar os pacientes a lidar ou ajustar-se a mudanças e traumas, construir resiliência e restaurar o equilíbrio. Isso não é mais possível: nosso novo ambiente é de “desequilíbrio” e imprevisibilidade, criando novos desafios emocionais e de vida em todos os aspectos.

O Psicólogo no passado e no presente

Os primeiros analistas foram exploradores aventureiros em terrenos desconhecidos. Eles estavam tentando descobrir como a personalidade humana e as paixões inconscientes evoluem dentro das pessoas, de modo a criar sintomas e disfunções.

Eles corajosamente arriscaram suas carreiras quando chamaram a atenção para o impacto da sexualidade reprimida. Além da precisão das primeiras teorias sobre as causas da perturbação emocional, o objetivo dos analistas era reduzir o sofrimento.

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Eles queriam ajudar as pessoas a desenvolver mais amor, razão e independência, mas dentro do contexto das normas de sua época.

Além disso, a maioria era versada em literatura, história e cultura, mais do que os Psicólogos de hoje. Isso deu a eles uma visão ampla e uma perspectiva de vida. Por exemplo, os escritos de Freud estão cheios de referências de Shakespeare, Goethe e outras grandes obras da literatura, drama e mitologia. Ele baseou-se em seus temas, enredos e representações de personagens para ajudar a iluminar e compreender os motivos e dilemas morais subjacentes aos problemas emocionais dos pacientes.

A maioria dos contemporâneos e seguidores de Freud possuía um espírito radical. Eles queriam descobrir a verdade por trás dos sintomas do paciente; ver abaixo da superfície. Compartilhavam a opinião de que o sucesso do tratamento se baseava no amor à verdade; isto é, realidade emocional.

Claro, Freud e seus contemporâneos interpretaram os problemas de seus pacientes de muitas maneiras que eram falhas. Fizeram suposições sobre a saúde psicológica que faziam parte dos valores e normas predominantes da sociedade pós-vitoriana do início do século 20, em uma cultura amplamente patriarcal.

O espírito de busca pela verdade, enraizado na ampla compreensão da cultura, literatura e história humanas, se perdeu.

Os Psicólogos de hoje tendem a ser técnicos, procurando a intervenção certa para tratar os sintomas. Muitos tendem a ser pessoas cautelosas, muitas vezes desengajadas e desapegadas em suas maneiras e interações com os pacientes. Eles ignoram em grande parte as forças filosóficas, religiosas, culturais e socioeconômicas que moldam o desenvolvimento psicológico das pessoas, especialmente aquelas em sociedades não ocidentais.

No entanto, todas essas forças impactam profundamente como e por que aprendemos a pensar e nos comportar. Muitos conflitos mundiais atuais refletem as diferenças que definem o que pensamos como “normal” ou “perturbado”.

Muitos Psicólogos hoje simplesmente assumem que o ajuste aos valores e normas predominantes reflete a saúde psicológica. Agora, isso é desejável para aqueles cujos conflitos os incapacitaram de um funcionamento minimamente bem-sucedido.

Mas erra o alvo para aqueles cujos conflitos estão ligados à uma adaptação bem-sucedida. O Psicólogo falha em explorar a definição de “sucesso” de seus pacientes, como isso moldou suas carreiras e objetivos de vida, seus conflitos e decepções.

Alguns Psicólogos gastam um tempo excessivo descobrindo pequenas verdades sobre a família e a infância do paciente, mas sem descobrir quais são as relevantes para os conflitos da pessoa hoje e quais não são. Eles ignoram o impacto das compensações e compromissos que os pacientes fizeram ao criar seus padrões de relacionamento sexual e íntimo.

No geral, os profissionais de hoje tendem a compartilhar, em vez de criticar e examinar, as normas sociais, valores e ansiedades do mundo. Muitas vezes, aceitam acriticamente o bom funcionamento per se, e valores convencionais como a busca de poder, como psicologicamente saudáveis.

Isso os impede de reconhecer que o ajustamento “normal” pode mascarar sentimentos reprimidos de autotraição, autocrítica e o desejo de ser mais livre, mais vivo. Todos esses anseios entram em conflito ou se opõem às expectativas dos pais e às pressões da classe social.

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Conflitos emocionais no mundo atual

Os problemas das pessoas mudaram. Durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos 50, início dos anos 60, os sintomas que eram mais típicos da época de Freud como histeria ou fobias específicas, por exemplo, diminuíram. As pessoas queriam ajuda para se encaixar nos aparentes caminhos do sucesso e da felicidade, e para lidar com os conflitos que a atrapalhavam ou limitavam.

A terapia frequentemente abordava coisas como culpa, inibição, necessidade de aprovação e como lidar com os conflitos gerados por papéis rígidos e definidos para homens e mulheres. Desejos ou anseios que se desviavam muito das normas vigentes eram incômodos e geravam conflitos, muitas vezes inconscientes.

O período de convulsão social do final dos anos 60 e 70 criou conflitos e lutas mais abertamente conscientes para muitas pessoas. O tema, aqui, buscava mais liberdade de relacionamentos opressores e restrições sociais.

Alguns Psicólogos foram capazes de abordar essas questões de maneiras úteis, enquanto outros estavam presos por sua própria aceitação acrítica das próprias normas das quais seus pacientes queriam ajuda para se libertar.

Em parte por causa dessa desconexão, muitos pacientes foram atraídos pela visão de desenvolvimento pessoal oferecida pelo movimento emergente da “nova era”, embora seus gurus geralmente carecessem de qualquer compreensão profunda sobre conflitos emocionais ou desenvolvimento psicológico.

Então, da década de 1980 até cerca de 2000, mais homens e mulheres procuraram ajuda para criar relacionamentos gratificantes e mais significado pessoal de seu trabalho. Os custos e limites do sucesso tornaram-se visíveis em pacientes que queriam ajuda para criar um maior “equilíbrio” entre vida profissional e pessoal, preservando seus relacionamentos e sua ascensão profissional.

Lidar com as consequências emocionais do estouro da bolha pontocom acrescentou outra dimensão a essas tensões. Durante esse período de maior busca de realização, mais pessoas se voltaram para o desenvolvimento espiritual como um companheiro ou substituto da terapia tradicional, especialmente por meio de tradições mais antigas, como o budismo e outras práticas orientais.

E agora, na era atual, os conflitos emocionais surgem mais do impacto psicológico de nosso mundo não linear, imprevisível e altamente interconectado. Por exemplo:

  • Incertezas financeiras e de carreira;
  • Mudanças de práticas em relacionamentos românticos/sexuais e;
  • Enfrentar as próprias responsabilidades para com os demais habitantes do planeta e para sustentar o planeta para as gerações futuras.

O impacto psicológico dessas questões interage com o legado de conflitos familiares e suas disfunções, e que as pessoas carregam consigo para o mundo adulto. É um novo universo de dor e confusão em potencial.

Então, o que ajuda?

Os Psicólogos precisam de uma visão de como é a cura e a saúde emocional hoje, e como ajudar o paciente a alcançá-la. Devem fazer um autoexame sobre seus próprios valores e atitudes.

Essa é uma salvaguarda contra a racionalização do fracasso em ajudar seus pacientes a examinar essas mesmas questões dentro de si. Caso contrário, o Psicólogo entra em conluio com quem está em tratamento para evitar confrontar questões relevantes para ambos.

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Os Psicólogos têm a responsabilidade de ajudar os pacientes a descobrir a verdade mais profunda sobre seus dilemas de vida, e não apenas continuar a detalhar todas as suas manifestações. Como os galhos de uma árvore, todos brotam do mesmo tronco, das mesmas raízes.

Para uma pessoa, isso pode ser um desejo profundo e inconsciente de permanecer protegido e seguro como um bebê. Ou um desejo de destruir o pai ou a mãe. Pode ser um intenso desejo de poder e dominação. Expor e confrontar esse cerne da verdade é libertador.

Ser um Psicólogo mais pessoalmente engajado é importante hoje, e os pacientes estão cada vez mais desanimadas com aqueles que mantêm a velha maneira de silêncio e distanciamento. Ou cujo foco rígido invoca neles os mesmos anseios insatisfeitos de nutrição e aceitação que experimentam em suas famílias.

Além das qualidades pessoais, os Psicólogos que estão familiarizados com o amplo impacto de nosso mundo pós-11 de setembro e pós-econômico na saúde mental das pessoas estão em melhor posição.

É essencial saber que os problemas emocionais das pessoas estão fortemente entrelaçados com as forças políticas, sociais e econômicas globais, como descrevi anteriormente, e é fundamental para os Psicólogos estarem sintonizados com as mudanças demográficas.

O resultado de tudo isso é que você precisa ser um consumidor informado sobre terapia. Para ajudar, aqui estão algumas perguntas úteis a serem feitas:

Sobre o seu Psicólogo:

  • Ele parece gostar do trabalho? Parece entediado ou deprimido?
  • Ele transmite um senso de humor ?
  • Ele parece ter uma perspectiva ampla e compreensiva sobre a variedade de vidas humanas?
  • Que experiência e conhecimento tem sobre o impacto do trabalho e das carreiras na vida das pessoas? Desconfie se ele indicar que tal familiaridade é irrelevante para o tratamento.

Sobre si mesmo:

  • Você se sente desafiado a olhar para si mesmo, mas dentro de um ambiente seguro, respeitoso e sem julgamento?
  • Você sente que o Psicólogo é capaz de “ver” você; suas verdades escondidas?
  • Você acha que ele está engajado e interessado em ajudá-lo, em vez de tratar de uma categoria diagnóstica?

Tenha em mente que todo mundo tem barreiras ao enfrentar e lidar com verdades desagradáveis ​​sobre si. Seja aberto e honesto com sua percepção. Use sua intuição, mas em conjunto com sua razão.

Não hesite em discutir essas questões e sua resposta a elas com seu Psicólogo.

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Sobre o autor: Emilson Lúcio da Silva

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Autor: Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Emilson Lúcio da Silva é Psicólogo desde 2012. Ele possui o título de especialista pelo Conselho Federal de Psicologia e é reconhecido como uma autoridade na área de saúde mental.

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