Não faça do cônjuge o seu Psicólogo

Um casal conversando, enquanto o homem está sentado no sofá, a mulher está sentada no braço do sofá.

Categoria: Casamento

Avatar de Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Importante: este artigo é meramente informativo e insuficiente para um diagnóstico definitivo. Sendo assim, é recomendado agendar uma consulta sobre seu caso em particular.

Publicidade
Início do artigo

Quando iniciamos o relacionamento com alguém, parece que ele se torna um mundo privado. Segredos, traumas e experiências da infância são compartilhados livremente, com a intenção de serem conhecidos, aceitos e apoiados pelo outro.

Com o tempo, fazemos do casamento um espaço seguro de compreensão e reflexão para nossos problemas, ansiedades e inseguranças. Mas, a partir disso, corre-se o risco colocar o peso da cura sobre ele também?

Neste artigo vou apresentar:

  • As diferenças entre conversas tarde da noite com seu parceiro e as sessões de terapia;
  • Como criar limites saudáveis em um relacionamento e;
  • Como estabelecer uma dinâmica saudável para um amor recíproco e saudável.

Por que compartilhamos nossa intimidade?

O compartilhamento é uma forma de intimidade usada para se estabelecer as bases de uma conexão próspera e duradoura. Quando um parceiro compartilha algo, ele geralmente quer reconhecimento ou construir uma conexão.

É uma forma de intimidade, onde alguém se sente seguro o suficiente para falar sobre seus pensamentos e sentimentos.

A base de um relacionamento precisa ser construída sobre a vulnerabilidade emocional e a honestidade radical. Quanto mais sabemos sobre o parceiro, mais descobriremos como amá-lo e apreciá-lo.

O compartilhamento saudável também leva a melhores percepções sobre proximidade, fortalecendo o relacionamento. As barreiras caem quando alguém ganha acesso ao nosso mundo sagrado, lugar onde estão nossos sentimentos mais profundos e nossos pensamentos mais íntimos.

Com o tempo, a intimidade ensina que o casal pode lidar com problemas individuais e mútuos juntos.

É bom ter alguém presente para nossa plena expressão emocional. Mas há uma linha tênue entre compartilhar traumas de infância para aprender sobre nossos problemas, e sobrecarregar a dinâmica com necessidades de cuidado excessivo ou ressentimento.

Vamos examinar pelo quê um parceiro romântico é e não é responsável em um relacionamento. As qualidades de um relacionamento saudável envolvem:

  • Capacidade de resposta;
  • Apoio;
  • Escuta;
  • Carinho;
  • Compreensão;
  • Comunicação;
  • Amor;
  • Valorização e;
  • Respeito mútuo.
Leia também:  Mitos e fatos sobre a intimidade nos relacionamentos

A disponibilidade emocional também é sensível às necessidades, ao enfrentamento dos altos e baixos da vida e no envolvimento com as resoluções saudáveis de conflito.

Esse tipo de reciprocidade cria um amor nutritivo com limites claros.

O suporte saudável vem em várias formas

Cuidar do parceiro significa ter interesse em ajudá-lo com suas provações e tribulações. No entanto, esse mesmo desejo pode, inadvertidamente, transformar o relacionamento interdependente em um relacionamento codependente, contrariando os pressupostos de uma terapia e gerando ramificações negativas.

Seu parceiro te conhece melhor do que os outros. Ele conhece a sua dinâmica familiar, experiências passadas, preocupações, objetivos e sonhos. E, no entanto, ele não pode ser seu Psicólogo.

Tentar colocá-lo nesse papel acaba gerando prejuízos e impactos negativos duradouro no relacionamento. Os indicadores de que um parceiro precisa ir à terapia é quando não temos certeza de como ajudá-lo, ou quando não nos sentimos capazes de atender às nossas próprias necessidades.

Por essas razões, é importante que o parceiro seja apenas um das muitas pessoas em quem nos apoiamos.

Por que a terapia é útil?

Sempre pergunte ao outro o que ele mais precisa no momento. Ele quer um conselho ou alguém para ouvi-lo sem julgamentos e comentários? Às vezes, ele só quer espaço para reclamar, sem precisar de soluções.

Se você oferecer conselhos não solicitados, o parceiro pode realmente ficar chateado ou insatisfeito, pois no momento ele precisa mais de apoio emocional do que resolver um problema.

Contudo, quando um limite é alcançado, é aí que entra o profissional de saúde mental. A terapia melhora drasticamente a qualidade de vida de uma pessoa, fornecendo um espaço privado para que o indivíduo fale sobre seus problemas e transforme o significado de suas experiências em estratégias de enfrentamento mais saudáveis.

O que o torna a terapia tão eficaz é que a relação terapêutica fornece um cuidado focado e com um objetivo bem estabelecido. Um Psicólogo tem treinamento, educação e experiência para co-criar um plano de tratamento com os pacientes, fornecendo a melhoria desejada e fornecendo novas perspectivas, ferramentas e práticas de uma mudança saudável.

Um parceiro romântico tem as melhores intenções de ajudar, mas se deixa influenciar por emoções subjetivas. Ele também não tem o conhecimento, as ferramentas, o conjunto de habilidades e a capacidade de ajudar em um nível necessário. Por outro lado, um Psicólogo está totalmente focado no crescimento e na cura de seu cliente.

Seu parceiro não pode ser tudo

Quando alguém vê o seu amado envolvido em um problema contínuo, oferece soluções por não querer vê-lo sofrendo. No entanto, ao adotar essa abordagem, pode cruzar os limites de um território mais obscuro.

Leia também:  Como a crítica pode arruinar um bom relacionamento?

Embora a ajuda possa ser dada como um ato de amor, quando ela é muito intensa, impede o parceiro de examinar seus próprios pensamentos, emoções e chegar as próprias respostas.

Se você ainda não tem certeza se está confiando demais em seu parceiro ou usando-o como um Psicólogo, aqui estão alguns sinais para ajudá-lo:

O relacionamento é codependente

A codependência é definida como um “relacionamento em que cada pessoa envolvida é mental, emocional, física e/ou espiritualmente dependente da outra”. Quando um parceiro dedica muito de seu tempo, energia e foco a uma pessoa, isso leva a um grave desequilíbrio de poder.

Você pode se tornar excessivamente dependente de regular suas emoções por meio do seu parceiro, bem como seguir seus conselhos, sobrecarregando involuntariamente o relacionamento.

O parceiro também pode se sentir inseguro em expressar suas opiniões, levando a emoções não expressas e frustração.

A dinâmica parece unilateral

Relacionamentos saudáveis ​​exigem dar e receber. Simplificando, nesta situação, uma pessoa está recebendo mais do que a outra. O parceiro que dá fica inicialmente entusiasmado por fornecer tanto apoio, mas facilmente esquecerá suas próprias necessidades e prioridades emocionais.

Publicidade

À medida que o parceiro necessitado aumenta sua dependência, o parceiro que dá começa a se sentir mais como um cuidador, em vez de se sentir igual.

Os seus problemas são profundos e sistêmicos

Uma coisa é compartilhar suas emoções com alguém, e outra é pedir a essa pessoa que desenrole toda a história de sua vida para ajudá-lo a se curar.

Conversar com o parceiro sobre um colega de trabalho ou um problema contínuo com seu familiar é diferente de tê-lo intencionalmente guiando você em sua cura.

A responsabilidade é grande demais para o seu parceiro, não importa o quão maravilhoso ele seja.

As emoções avassaladoras levam à evitação

Quando você está sofrendo, seu parceiro vai querer fazer tudo o que puder para garantir que se sinta melhor. Mas, se estiver usando-o como um Psicólogo, isso afetará o modo como vocês dois demonstram afeto e compartilham felicidade.

Esse nível de cuidado leva a emoções avassaladoras, onde um ou ambos começarão a se afastar ou evitar.

Os perigos de compartilhar demais

Ter emoções angustiantes, como ressentimento, desapontamento e aborrecimento por ser uma pessoa de apoio é sinal de que ajudar está se tornando demais.

Então, responda ao parceiro com mais compaixão do que empatia. Empatia é quando sentimos as emoções do outro e até nos juntamos a ele em seu sofrimento, enquanto a compaixão nos permite refletir sobre o que podemos fazer para ajudar.

Leia também:  Seu parceiro passa mais tempo no celular do que com você?

A manutenção de limites fortes em um relacionamento é essencial. Quando despejamos nossos problemas no outro, damos a ele mais acesso ao nosso mundo emocional, pensamentos, tempo e espaço físico, prejudicando nossa autonomia, individualidade e senso de identidade.

O parceiro assume muita responsabilidade

Confiar no parceiro para nosso processamento emocional também coloca nele uma pressão imensa para consertar coisas, podendo se transformar em ressentimento. Isso não é tão eficaz quanto ir a um Psicólogo, e acabará piorando as coisas. Ainda que um parceiro fosse Psicólogo, não conseguiria ser imparcial.

O compartilhamento saudável ainda pode ocorrer, mas dentro de limites para que aquele que pede não se torne emocionalmente dependente, e o parceiro que ajuda proteja sua saúde mental.

Se um cônjuge puder ouvir enquanto oferece empatia e gentileza, isso irá fortalecer o relacionamento. Não há problema em ter empatia com nosso parceiro se ele estiver lutando com um colega de trabalho difícil. No entanto, se essa experiência está causando flashbacks de trauma, por exemplo, então é hora de apoio profissional.

Criando um equilíbrio saudável

É fundamental ter claro o que é essencial compartilhar, incluindo limites, necessidades, expectativas e história.

Para todo o resto, é suficiente oferecer suporte intencional sem entrar no modo de solução de problemas.

Identifique limites e compartilhe o essencial

Não é sinal de fracasso se nos sentimos incapazes de ajudar o parceiro da maneira que ele precisa. A existência de limites permitem uma intimidade saudável nos relacionamentos. Nem todo segredo, desejo ou experiência precisa ser compartilhado.

Usar a metacomunicação antes de entrar em um tópico carregado ajuda a gerenciar as expectativas emocionais. Por exemplo: “Gostaria de falar sobre meu dia de trabalho hoje e, só para avisar, foi absolutamente horrível. Tudo bem se eu compartilhar mais?”

Em seguida, deixe o parceiro responder e seja honesto sobre se agora é um bom momento, ou talvez vocês dois possam encontrar outro momento no futuro, assim que estiverem prontos para estar totalmente presentes e ouvir.

Palavras finais

Podemos querer que nosso parceiro seja tudo, mas ele precisa ser apenas uma parte maravilhosa do nosso mundo, não tudo.

Para garantir que seu relacionamento continue sendo uma parte saudável da vida, integrar um forte sistema de apoio e um Psicólogo confiável é a chave para uma boa estratégia de saúde mental.

Sobre o autor: Emilson Lúcio da Silva

Avatar de Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Artigos relacionados

Avatar do Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Autor: Psicólogo Emilson Lúcio da Silva

Emilson Lúcio da Silva é Psicólogo desde 2012. Ele possui o título de especialista pelo Conselho Federal de Psicologia e é reconhecido como uma autoridade na área de saúde mental.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *